Pastoral | Vigília Pascal: E as trevas dissipam-se…
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Vigília Pascal: E as trevas dissipam-se…

Evangelho de Marcos, capítulo 16, versículos 1 a 7

 

Quando passou o sábado, Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé, compraram perfumes para ungir o corpo de Jesus. E bem cedo, no primeiro dia da semana, ao nascer do sol, elas foram ao túmulo. E diziam entre si: Quem rolará para nós a pedra da entrada do túmulo? Era uma pedra muito grande. Mas, quando olharam, viram que a pedra já tinha sido retirada. Entraram, então, no túmulo e viram um jovem, sentado ao lado direito, vestido de branco. Mas o jovem lhes disse: Não vos assusteis! Vós procurais Jesus de Nazaré, que foi crucificado? Ele ressuscitou. Não está aqui. Vede o lugar onde o puseram. Ide, dizei a seus discípulos e a Pedro que ele irá à vossa frente, na Galileia. Lá vós o vereis, como ele mesmo tinha dito.

PODCAST

FICHA TÉCNICA

Produção: Pastoral Universitária PUC Minas,

Organização: Prof. Eurides Rodrigues

Texto: Frei Prudente Nery, OFMCap.

Locução: Pe. Nereu de Castro Teixeira.

Trilha sonora: gentilmente cedida pelos Monges da Abadia da Ressurreição, Ponta Grossa, Paraná.

O episódio de hoje foi Gravado e Editado no Laboratório de Áudio da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, em fevereiro de 2018.

E as trevas dissipam-se…

 

Existem experiências humanas, muitas até que são verdadeiramente universais, isto é, são vividas por todos os homens, para além de todas as suas diversidades culturais, em todas as partes do mundo e em todos os tempos, desde que o homem deu seus primeiros passos, ainda tímidos, no reino do espírito, há cerca de 200.000 anos. Duas hão de ter impressionado, sobremaneira, o homem primitivo: o fogo e o espetáculo de luzes e trevas, o pôr-do-sol e o seu renascer, no ciclo dos dias e das noites.

 

Como será possível que, de galhos secos e mortos, surja algo assim tão vigoroso, cheio de vida, debelando as trevas, aquecendo o frio? É possível, hão de ter constatado, perplexos, nossos primeiros pais. Assim como também o milagre do erguer-se do sol, exuberante, depois de seu triste adeus, no entardecer.

 

Coube aos antigos egípcios expressar em signos e palavras, há mais ou menos 5.000 anos, a beleza dessa experiência. Cansado de seu longo trabalho – assim pensavam e diziam eles – o sol era recolhido, ao cair da tarde, pela deusa da noite. Sob seu manto de mil estrelas, ao cair da noite, ela ia ao encontro do sol, tomava-o em suas mãos e o guardava na tumba da noite. Pela manhã, ela o retirava de lá, devolvendo-o ao céu, rejuvenescido, restaurado e cheio de vida, para as trilhas de um novo dia.

 

E há de ter sido aí, no ciclo da natureza, que os primeiros humanos entreviram a resposta para o mais dramático enigma da vida humana: a morte. Em sua linguagem silenciosa, é o que lhes ensinava a natureza: De folhas secas e galhos sem vida, ressurgia a vida. Das trevas, levanta-se o sol, em nova luz. Assim também conosco. Do outro lado do escuro da morte e das tumbas, reergue-se a vida, refeita de novo esplendor, ornada de luzes e cores, jucunda e bela, como o fogo, soberana e forte, como o sol.

 

Em poucas variantes, a simbólica dessa esperança humana atravessa, de ponta a ponta, todas as culturas e religiões: nosso destino não é o nada, o vazio, as trevas, mas um renascer, no além dos horizontes deste mundo, em novo vigor e beleza.

 

Ao recolher e ornar a Festa da Ressurreição de Jesus Cristo exatamente com tais símbolos – o fogo e a noite -, o Cristianismo toca o coração dessa arcaica esperança humana, confirma-a e, testificando-a, diz: Sim, é verdade. Agora sabemos que aquilo que intuíram os nossos pais, não era uma ilusão. A morte não é tudo.

 

Era madrugada, diz o texto que ora meditamos, quando algumas mulheres, entre elas Maria Madalena, foram à tumba de Jesus. É sempre assim, em nossa vida, quando perdemos alguém que tanto amávamos: madrugada, silêncio, solidão, insônia, vazio. É de dentro desta imensa saudade, que elas vão até lá, para estar perto daquele que se lhes tornou sagrado. Segundo Marcos, para ungir com perfumes os restos mortais de seu Mestre e Senhor. Quem não gostaria que isso fosse possível? Rolar a pesada pedra que tranca a sepultura daquele que amávamos, tomar, com infinito cuidado, o corpo sem vida, curar-lhe as feridas com a carícia da gratidão, preservar-lhe a beleza com a delicadeza dos perfumes, protegê-lo contra a corrupção, trazê-lo de volta à vida. E como o desejamos.

 

Já está feito… tudo isso e muito mais. É o que ousa afirmar a esperança cristã, numa linguagem tão delicada que parece vir não deste mundo, mas das esferas do mais profundo e mais sagrado, como de mensageiros de Deus mesmo (anjos). Deus confirmou nossa última esperança. Aquilo que nossos pais entreviam no ciclo da natureza, como uma parábola de seu próprio destino, o fogo que brota das folhas sem vida, o sol que renasce das trevas, a vida que ressurge da tumba, é verdade.

 

Foi terrível o que foi feito. Quiseram matar os jardins, pisando sua mais bela flor. Quiseram aprisionar, atrás de pesadas rochas, o espírito da grandeza e liberdade. Quiseram o impossível…Confirmaram-se a fé a as palavras de Jesus: Deus cuida dos seus… Olhai os lírios dos campos… Olhai os pássaros do céu (Lc 12, 24.27).

 

Começa um novo dia. O sol se levanta outra vez, primeiro com uma tímida claridade (madrugada). Importa agora permitir que esta frágil luz inunde a penumbra da tristeza, das incertezas, do desconsolo, da perda e da desesperança. A tumba está vazia. Do lado direito (consciência) é preciso agora ouvir a voz da eternidade (anjos). Nada do que disse e fez Jesus, na Galileia, nada do que acreditaram seus discípulos, ao ouvi-lo e vê-lo, foi destruído ou se perdeu na cruz, naquele vesperal de maquinações, cinismo e brutalidade em Jerusalém. Não há mais razões para reter o que já não mais existe (corpo / perfumes). Importa retomar o que, começando na Galileia, é para sempre e eterno: suas palavras, seu caminho, sua vida. Sim… Ele ressuscitou e, como um sol, espalha sobre os homens sua luz e sua paz, cantarão, para sempre, no meio da noite, os cristãos (Precônio Pascal).

 

Frei Prudente Nery, OFMCap.