Pastoral | Sexta-feira santa: Por que?
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Sexta-feira santa: Por que?

Por que?

Paixão e morte de Jesus Cristo

Introdução

 

Nestes dias, a alma cristã se volta para a Palestina e acompanha, com especial reverência, o destino de Jesus Cristo, em suas últimas horas de vida neste mundo. Naqueles dias, como hoje, a pergunta que jamais se cala: Por que? O que ocorreu? O que levou Jesus àquele trágico fim? Quem são os feitores daqueles fatos?

 

A distância de tempo que se interpõe entre nós e aqueles dias de primavera do ano 31 é de quase dois mil anos. Tempo suficiente para que se percam, nos sombrios da história, preciosos detalhes dos fatos dramáticos daqueles dias. De resto, são séculos e mais séculos de compreensões, interpretações, explicações que tentaram dar-se conta daqueles impressionantes fatos.

 

Os Evangelhos, entretanto, guardam, para além de todas as interpretações posteriores, preciosas informações que, se lidas sem preconceitos, nos oferecem elementos capazes de entender as razões que levaram o Profeta de Nazaré à morte, no meio da vida.

 

Urge compreendermos, tanto quanto possível, tais razões, não para estabelecermos, em rancor, seus responsáveis, não para nos apiedarmos de Jesus, num dolorismo inoperante, mas para, compreendendo as causas que levaram à morte de Jesus, evitarmos, para todo o sempre, a paixão e a morte de outros tantos irmãos de Jesus e nossos.

 

Essa e não outra é a razão de rememorarmos, todos os anos e sempre de novo, a vida e a morte de Jesus de Nazaré. Pois ele sofreu todas as nossas dores, para que ninguém mais precisasse sofrê-las. Ele chorou todas as nossas lágrimas, para que ninguém mais as precisasse chorar. Ele experimentou, em seu corpo e alma, a violência da brutalidade humana para que ninguém mais precisasse experimentá-la. Ele desceu aos infernos da maldade para retirar de lá todos os seus irmãos.

 

É o que tenta fazer esta Meditação: Considerando as informações disponíveis nas Escrituras Cristãs, ela busca desvelar a trama oculta, os interesses, as negociatas, os medos, as indecisões, os enganos que, numa impressionante cooperação, se entrelaçaram numa rede mortal que caiu sobre Jesus de Nazaré, roubando-lhe a vida.

PODCAST

FICHA TÉCNICA

Produção: Pastoral Universitária PUC Minas,

Organização: Prof. Eurides Rodrigues

Texto: Frei Prudente Nery, OFMCap.

Locução: Pe. Nereu de Castro Teixeira.

Trilha sonora: gentilmente cedida pelos Monges da Abadia da Ressurreição, Ponta Grossa, Paraná.

O episódio de hoje foi Gravado e Editado no Laboratório de Áudio da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, em fevereiro de 2018.

Os últimos tempos

 

Os últimos meses da curta vida pública de Jesus foram de extraordinária efervescência. Em Jerusalém, a elite sacerdotal, guardiã da doutrina e da observância religiosa em Israel, chega ao limite de sua tolerância: É preciso interceptar as ousadias e a trajetória do Herege da Galileia. Sua doutrina, pronunciada com extraordinária força e acompanhada de feitos miraculosos, tem fascinado multidões. A continuar assim, pouco sobrará das tradições e costumes seculares da verdadeira religião. Em caráter inoficial, emissários do Sinédrio são enviados a Jesus, a fim de averiguar suas doutrinas (Jo 3, 1-15). As dúvidas permanecem. Para alguns, ele não passa de um charlatão, ilusionário e ilusionista. Outros o consideram um homem de Deus.

 

Os Sacerdotes em Jerusalém têm, porém, um limite. Tecnicamente, não lhes é possível prender Jesus e submetê-lo a um julgamento a não ser dentro da área de sua competência, a saber: na Judéia. Mas Jesus atua, preponderantemente, na Galileia. Se ele não aparecer na Cidade Sagrada, não será possível arrestá-lo.

 

Em Jerusalém, há uma agitação febril em torno de Jesus: Quando ele virá a Jerusalém? Dirá ele, ali, nos domínios sacerdotais, às claras, o que vem dizendo, da distância da Galileia? (Jo 7, 11-12). Jesus, por sua vez, também ele, esperto como as serpentes (Mt 10,16b), a ele não escapa que, em Jerusalém, trama-se a sua morte. Mesmo sua parentela – possivelmente já não mais suportando a tensão que se formara em torno de seu ilustre membro – tenta convencê-lo de subir a Jerusalém, ainda que sabendo das hostilidades que lá o aguardam (Jo 7, 3-8). Jesus, porém, faz segredo sobre suas intenções (Jo 7, 1).

 

Na Festa do Tabernáculo (outubro do ano 30), ele sobe a Jerusalém… clandestinamente (Jo 7, 10). Fiel à melhor tradição profética, Jesus sabe, com arguta perspicácia, até onde pode ir nesse momento. E assim ele o faz: Em aparições-relâmpagos, à luz do dia, protegido por sua popularidade, ele profere abertamente suas invectivas contra a religião oficial e os piedosos, desautoriza a Lei de Moisés (Jo 8, 2-11), cura um miserável e desaparece (Jo 7, 26-26). Não conseguem prendê-lo (Jo 7, 44). Tentam apedrejá-lo, mas Jesus se oculta (Jo 8, 59). Recua para a Transjordânia (Jo 10, 40), para longe dos domínios dos Sacerdotes, de Pilatos e Herodes. Certamente pressionado pelos Sacerdotes, agora é Herodes, o Antipas, Senhor da Galiléia, que está à procura de seu súdito. Daqui, do estrangeiro, Jesus manda também para Herodes o seu recado: Ide dizer a essa raposa que fico aqui mais três dias… Depois continuo meu caminho, pois não convém que um profeta morra fora de Jerusalém (Lc 13, 33). Uma adversidade mortal está armada por todos os lados.

 

As deliberações em Jerusalém concluem com um decreto de prisão: Quem souber onde ele se encontra, deve denunciá-lo, a fim de que seja preso e levado a julgamento (Jo 11, 57). O cerco se fecha ao redor de Jesus. A ele não resta outra saída senão recolher-se, por certo tempo, na clandestinidade… em Efraim, na Samaria, entre os hereges (Jo 11, 54).

A subida final para Jerusalém

 

Nada disso parece constituir para Jesus uma inesperada surpresa. Desde bem cedo, era-lhe claro que suas palavras e atitudes, mais dias menos dias, atrairiam sobre si um ódio mortal. Ele conhecia bem os seus adversários e suas últimas intenções. Além disso, o trágico destino dos profetas em Israel não lhe era desconhecido.

 

Subir a Jerusalém é o mesmo que ir ao encontro da morte. O que fazer então? Recuar? Desdizer, diplomaticamente, o que fora dito do alto das montanhas, das planícies do Mar da Galiléia, da sinagoga? Esconder-se, como vem fazendo nos últimos meses? Por quanto tempo ainda? A continuar assim, nessa fuga intermitente, ele, ao final, nada mais seria do que uma sombra de si mesmo. Ele deve a si e a todos a verificação final de suas próprias palavras: Temer deveríamos não os homens, que matam apenas o corpo… (Mt 10, 28)

 

Jesus decide subir a Jerusalém. É primavera do ano 31. A grande Festa da Páscoa está próxima. Nela, Israel recorda, em gratidão, a força e a fidelidade de seu Deus. Escravos em terra estranha, perdidos no deserto, os filhos de Abraão, entre sonhos e sofrimentos, experimentaram que Deus jamais abandona os seus. Esta é agora a última esperança de Jesus. Todo o resto, a essa altura dos fatos, são escombros. E aí residem as razões de sua angústia. Não em Deus e em sua fidelidade, mas nos homens e em sua firmeza, parece agora desacreditar o grande Profeta da Galiléia.

 

Para Jesus, esta jamais foi a questão: se Deus é confiável ou não. Deus lhe era infinitamente próximo, também agora, em sua solidão. É a ele que Jesus se agarra, em intermináveis horas de oração. E Jesus sabe: Deus nada fará à revelia da história, antes estará a seu lado, morrendo com ele.

 

Como fazem todos os homens em instantes de fracasso, também Jesus, percorrendo tudo que dissera e fizera, há de ter se perguntado onde e em que fora, possivelmente, longe demais, a ponto de provocar contra si tanta adversidade. Olhando com seus olhos, nada encontra do que ora o acusam: transgressor irresponsável de normas sagradas, sublevador das massas, herege. Ele falava, sim, uma outra linguagem. Ele buscou fazer o bem, não importa em que dia e hora. Ele trouxe de volta os que se perderam, malgrado toda sua culpa. Ele quebrou, sim, preceitos religiosos, mas jamais por anarquia ou desrespeito, mas por pura misericórdia. Mas não era exatamente tudo isso a grande descoberta de sua própria religião: que Deus não é um tirano, mas imensamente humano, que não quer sacrifícios, mas misericórdia? Onde, então, seu erro? Se Jesus errou nalgum ponto, então apenas neste: Ter acreditado que os homens fossem capazes de aderir de corpo e alma, sem medos, àquilo que eles mesmos tanto buscam, sonham, esperam e querem.

 

Jesus pede, então, a Deus para afastar dele, se possível, a amarga bebida, o veneno do ressentimento. Agora, sim, chegou a sua hora, a hora em que seu espírito parece forte, outra vez, para atravessar o inferno. Se é para morrer, que seja então às abertas, não pelas mãos de um truão embriagado, como fora João Batista, mas pelos Sacerdotes, seus reais adversários, e em Jerusalém, o centro religioso em Israel, à vista de todos. Fora assim que ele tudo fizera, às claras e publicamente. Será assim que terão que retirá-lo de seu caminho. Pública, agora, é sua entrada em Jerusalém e aparentemente entusiástica.

O último adeus

 

Ao cair da tarde de seu último dia, Jesus teria se reunido com seus discípulos. Era seu desejo celebrar a Páscoa com seus discípulos. Para os discípulos, uma festa. Para Jesus um adeus. E assim há de ter sido: a festa de um adeus. Ervas amargas, um pouco de vinho e pão, uns poucos gestos e palavras. Para Jesus, neste instante, tudo fala e aponta na mesma direção, como quem busca entrever em cada coisa os acenos de uma vida imorredoura para além da angústia e da morte. O vinho que ora bebem… Um dia, ele foi uva que, arrancada da rama e pisada, se transformou em preciosa bebida. Também o pão, que agora os alimenta… Seus grãos foram arrancados das espigas e triturados. Estão diante dos olhos de todos, todos os dias, os acenos de Deus e as parábolas da Eternidade. É claro que dói, terrivelmente, ser caluniado, aprisionado, cuspido, humilhado, abandonado na solidão, cravado na cruz, por força de malícias, distorções e preconceitos. Tudo isso é tremendo. Mas é melhor sofrer isso e muito mais, do que se torcer, se contorcer, se retorcer e retroceder da própria retidão, por medo diante dos homens. Não. A morte não é tudo, apesar de sua aparente totalidade. Uma vida, aos olhos de Deus, vale não pela morte que morremos, mas pela vida que tivermos vivido: no serviço e no amor (lava-pés).

A derradeira solidão

 

Dali, Jesus e seus discípulos se dirigem, pelo Vale do Cedron, ao Monte das Oliveiras. Era algo bastante comum, por ocasião da Festa da Páscoa, pernoitarem os peregrinos ao ar livre, seja pelo clima benfazejo da primavera, seja pela quase impossibilidade de se conseguir acomodação na cidade de Jerusalém. Aqui, Jesus e os seus se recolhem. Os discípulos para seu sono. Jesus para sua última solidão. Ele apenas e Deus. O que aqui se passou, será para sempre o seu segredo. Enquanto isso, os discípulos dormem, esgotados pelo dia tumultuoso.

A prisão, os processos, a sentença

 

Aprisionado aqui possivelmente por uma guarda templária, Jesus não oferece resistência. Antes, protege seus discípulos, que batem em retirada. É noite alta. Na casa de Anás, começa a inquisição. Aparentemente uma dupla irregularidade: Jesus é conduzido a Anás no meio da noite. Sumo-Sacerdote deposto pelo Procurador Romano Valério Grato, no ano 15, Anás não tinha mais nenhuma competência para presidir a um inquérito oficial. Sua habilidade, astúcia e seu prestígio no Sinédrio, assim como seu parentesco com o Sumo-Sacerdote Caifás, de quem era sogro, asseguravam-lhe, porém, o privilégio de ser o primeiro a ter, diante de si, o Galileu Herege. Não importa que seja já noite, afinal não se trata ainda de um processo formal. Aqui as perguntas giram em torno de doutrinas secretas, algo proibido em Israel, ainda que assaz frequente. Jesus nega tal acusação.

 

Daqui Jesus é conduzido até José, o Caifás. Faz-se uma primeira oitiva. As acusações são diversas e confusas. Agressor virtual do Templo de Jerusalém, desrespeitador contumaz das leis religiosas, mormente do preceito sabático, blasfemo, o próprio Sinédrio parece discorde em oferecer uma denúncia clara. Na manhã seguinte, porém, a sentença é proferida, por unanimidade, com indúbia clareza: digno de morte.

 

Pode-se, sim, interpor graves restritivas contra a legalidade da prisão, do processo e da sentença exarada contra Jesus, tais como: prisão após o pôr-do-sol, audiência indevida diante de Anás, tribunal privado, oitiva noturna, acusação vaga, testemunhos contraditórios, enfim um conjunto de irregularidades que fazem os acontecimentos daquele dia parecerem quase um simulacro judicial. É verdade que toda a entrepresa contra Jesus decorreu na premura de poucas horas e de forma tremendamente tumultuária. Quanto a isto, porém, não restam dúvidas: De acordo com as leis religiosas em vigor, Jesus fez-se, sim, réu de máxima sentença. A pena de morte pronunciada contra o Nazareno – subtraídas as imprecisões processuais – foi, destarte, legal, isto é, de acordo com a legislação religiosa então vigente. A sentença final, num processo regular, teria sido, seguramente, a mesma.

 

Sob o domínio dos romanos, o Sinédrio não possuía o jus sanguinis, isto é, não lhe era permitido executar uma sentença de morte. À corte máxima de Israel não resta outra saída senão conseguir que a Procuradoria Romana confirme e execute seu veredicto. E para que seu pleito tivesse alguma chance de ser ouvido e ratificado, não havia outra possibilidade senão transformar os crimes religiosos cometidos por Jesus em um crime político. Foi o que, com astúcia, fizeram os interessados em sua morte: Diante de Pilatos, Jesus é acusado de insídia contra o Império Romano. Pilatos homologa a sentença do Sinédrio e Jesus é condenado à morte na cruz, o summum et crudelissimum suplicium, reservado aos crimes de alta traição e subversão política.

A crucifixão e a morte

 

A morte na cruz, pena praticada originalmente pelos fenícios, assírios e persas, foi introduzida no Império Romano em torno do II século antes de Cristo. Era uma pena tão cruel que dela disse Marco Túlio Cícero (100-43 aC), orador romano: A cruz deve permanecer longe não apenas do corpo dos cidadãos romanos, mas até mesmo de seus olhos, ouvidos e pensamento, tal a sua crueldade. E, de fato, sua aplicação se restringia apenas a crimes verdadeiramente graves, caso o criminoso não possuísse a cidadania romana.

 

A crucifixão não tinha um ritual ou modus procedendi fixo. As variantes dependiam da inspiração dos carrascos. Usualmente, podemos supor o seguinte cenário: o condenado era despido e, depois de flagelado a fim de não oferecer mais resistência, atado de braços abertos, em horizontal, a um pau, a ser transportado por ele até o local da execução. Aí, pau e condenado eram içados e amarrados a um outro pau, previamente fincado na terra, em vertical. O condenado poderia ser amarrado à cruz com cordas, pregado com cravos, ou mesmos ambos. Era natural que os crucificados com pregos, por hemorragia ou tétano, morressem mais rapidamente. As Escrituras Cristãs descrevem esta variante como tendo sido a forma de crucifixão de Jesus de Nazaré.

 

Do alto da cruz, depois de rejeitar todas as ofertas de lenitivos para sua dor (vinagre, mirra e fel), Jesus, crucificado com outros dois criminosos (políticos), teria pronunciado ainda algumas últimas palavras: uma oração entrecortada (Sl 22), uma palavra de perdão aos seus algozes, outra de consolo a um de seus companheiros de suplício, outra ainda à sua mãe, uma última palavra dirigida a Deus, confiando em suas mãos o próprio espírito e, por fim, um grito desarticulado. Uma morte, pois, sem agonia, cerca de três a cinco horas apenas após a crucifixão. Como testemunhas, umas poucas pessoas, talvez somente algumas mulheres. Como causa mortis, possivelmente, um evento coláptico generalizado, em decorrência não apenas dos esforços físicos das últimas horas, mas também de seu estado de espírito: a solidão, a humilhação, a vergonha e o fracasso.

 

Algumas horas depois, José de Arimateia consegue de Pôncio Pilatos licença para retirar da cruz o corpo de Jesus. Após rápido preparo do corpo, com essências e óleos ofertados por Nicodemos (Jo 19, 39), o cadáver de Jesus é recolhido a uma tumba. Aqui termina a história de Jesus de Nazaré.

Figurações e tipologias

Atrás de tais fatos, porém, houve homens, tipos humanos e, neles, interesses, limites, intenções, medos, modos de ser e viver, medidas, indecisões, atos e atitudes, figurações que importa vislumbrarmos, a fim de que compreendamos a trama diabólica da rede que interceptou, em pleno voo, o itinerário de Jesus de Nazaré. Embora trágico e para seus seguidores um caso realmente singular, a morte de Jesus não é nenhuma exceção. Antes, na história humana, a morte do justo é quase a regra. Por que? Que homens somos nós que desterramos, para longe de nosso convívio, os melhores de nossos irmãos? Por que morreu este homem, assim como outros tantos enviados dos céus, atropelados pelas rodas de nossa história? Por que tinha que morrer Jesus de Nazaré?

 

A tal pergunta, a tradição cristã – e muito mais ainda a piedade popular – produziu uma resposta aparentemente satisfatória. À primeira vista, ela responderia tudo, sem restos. Jesus teria morrido para nos salvar. As explicações aqui são relativamente simples. Segundo tal compreensão, o pecado dos homens (pecado original) teria ofendido a Deus de tal sorte que Ele teria razões de sobra para exterminar com toda a humanidade. Em sua infinita misericórdia, porém, Deus enviou seu Filho ao mundo a fim de, em lugar de todos, derramar seu sangue, resgatando assim a dívida de todos os pecadores. Por seu sacrifício, apaziguada foi a ira de Deus. Salvos estamos agora diante de Deus, redimidos de nossa culpa e lavados de nossos pecados pelo sangue de sua morte.

 

É uma resposta que a nada responde, efetivamente. Antes suscita incontáveis outras perguntas. Será isso? Tudo previsto, predeterminado, prescrito pelo Senhor de todos os destinos, o arquiteto da morte de Jesus, Deus, o autor do drama de Jerusalém, do qual os homens não passariam de fiéis atores? Judas, Caifás, Herodes, Pilatos, todos apenas instrumentos de um intransigente desígnio de Deus? Mas se assim for, por que não declarar tais consequentes executores da vontade de Deus santos?

 

O mais tardar aqui, haveremos de perceber que uma tal compreensão da morte de Jesus é, minimamente, um grave equívoco. Jamais Deus quis a morte de um inocente. Nós homens é que sempre de novo assassinamos aquilo que vem de Deus. Não Deus é homicida, nós é que somos deicidas. Nós é que, quais aranhas, segregamos os nossos venenos e tecemos nossas teias, a fim de que nelas caia a beleza do que, ainda que nos encantando, nos enche de vergonha: a leveza das borboletas.

 

Aqui entre os homens e neste mundo importa buscar as razões daquela terrível semana, que ora chamamos santa.

Judas

 

Não seria correto tentar desculpar Judas de sua real responsabilidade na tragédia de Jesus de Nazaré, como querem fazer inúmeras obras sobre essa figura. De igual modo, não é justo transformá-lo num demônio ou no único responsável da morte de seu Mestre.

 

Seria, para todos os envolvidos, confortador e um certo alívio, se pudéssemos debitar toda a hipoteca daquele crime na conta de um ganancioso, corrupto, inescrupuloso, sem caráter, um sinistro delator apenas e nada mais. Não são poucos o que pensam assim sobre Judas. Até mesmo as Escrituras Cristãs não escaparam ao comodismo de uma tal explicação. A questão é, porém, se Judas foi mesmo esse traidor desalmado e vil como costumamos considerá-lo. Não é possível passar ao largo desta difícil questão: Qual teria sido sua real participação e culpa na armadilha mortal instalada no caminho de Jesus.

 

Não pode ter sido esta a verdade desse homem que desde as primeiras até as últimas horas esteve ao lado de Jesus (Mt 3, 19 / Mt 26, 25), como um discípulo escolhido pelo próprio Jesus, esse conhecedor profundo dos homens. Um homem digno de confiança, pois a ele foi entregue o cuidado das finanças do grupo dos discípulos. De resto, se visto sem preconceito, um homem que, inescrupulosamente, trai alguém por dinheiro, dificilmente devolveria a paga de sua traição antes mesmo da morte do traído.

 

Importa, pois, compreendermos as verdadeiras razões de Judas. Dos discípulos de Jesus, ele foi o único judeu. Todos os outros eram galileus. Portanto, o único discípulo originário da proximidade de Jerusalém. Iscariotes, um lugarejo ao sul da Cidade Sagrada, era sua terra. Diferentemente dos outros, ele conhecia o Templo e os Sacerdotes de bem perto. Aprendera, certamente, a estimá-los não apenas como legítimos representantes de Deus, mas também como homens íntegros. Doutra parte, ele conhecera também de bem perto o Profeta de Nazaré, encantara-se por suas palavras. A ele entregou a sua vida.

 

E agora o dilema. De Jesus, ele ouve duras críticas contra os Sacerdotes e o Templo: maus pastores, ladrões, salteadores. E dos Sacerdotes ele escuta que seu Mestre nada mais é senão um anarquista e endemoniado. Todos estão errados, há de ter pensado Judas. Os Sacerdotes não são essa súcia de assassinos, como acusa Jesus. E Jesus é um homem de Deus. Ele os conhece bem a todos. Jesus, que até aqui se recusara a um diálogo direto com os Sacerdotes em Jerusalém, não pode continuar a se esconder, como tem feito nos últimos meses. Por sua vez, os Sacerdotes não podem condenar o Rabbi da Galiléia sem jamais o terem ouvido. E, assim, Judas provoca o encontro. Jesus saberá defender-se, com soberania, das acusações que lhe são imputadas e verá, por sua vez, que os Sacerdotes não são injustos. Se eles se reconciliam, Judas mesmo estaria em paz.

 

Perplexo, Judas constata, poucas horas depois, que não houve diálogo. Jesus está condenado à morte. E que ele tinha razão em seu juízo sobre os Sacerdotes. Pressurosamente, ele tenta reparar seu próprio engano. Em vão. E agora? O que faz alguém quando se dá conta de que, por ingênua culpa, entregou à morte aquilo que mais amava? O que fazer quando se percebe que se traiu exatamente aquele que era a luz e o caminho da própria vida? Como continuar vivendo, quando se mata o sentido da própria vida?

 

Como quer que o julguemos, Judas foi, dentre todos os discípulos, o único que desistiu de viver, ao antever a morte de Jesus. Segundo uma tradição dominante (Mt 27, 5), ele teria se enforcado. Uma tradição secundária (Atos 1, 18) afirma que ele teria explodido por dentro. Ambas as tradições devem estar corretas. Assim deve ter morrido este enigmático discípulo: sem chão sob os seus pés, dependurado no vazio e estourado por dentro, pelo pesar de ter, por amor, matado o próprio amado. Como condenar Judas?

 

Não. Não foi Judas o assassino do Nazareno. Ele foi apenas um fio nessa teia. E, nele, esta silenciosa lição: Também por ingenuidade, podemos matar a vida e tornar-nos culpados, apenas por termos sido indecisos.

 

Pedro

 

Mas dos discípulos de Jesus, Judas não foi o único desertor. Até mesmo o corajoso Pedro, que há poucas horas jurara jamais abandonar seu Mestre (Mt 26, 33) e que, à hora da prisão, tivera ainda a coragem de desembainhar a sica para defender Jesus( Mt 26, 51), até mesmo ele balança. Destemido, sem dúvida, para se esgueirar até o átrio da casa do Sumo-Sacerdote e acompanhar, ainda que à distância, o destino de seu Senhor, mas à simples pergunta de uma simples mulher, a rocha (kephas / pedra / pedro) treme e se transforma num monte de areia movediça… e ele nega Jesus (Mt 26, 70). Afinal, para que confessar-se discípulo de Jesus, sob o risco de ser também ele preso? A quem serviria a prisão de mais um? Dizer-se próximo de Jesus, nessa hora, em que isso mudaria o seu destino?

 

São inúmeras as razões a favor de Pedro. E ele estaria para sempre desculpado, não tivesse um coração que o acusa, mesmo lá onde a razão o declara inocente. Tão logo ele deixa o átrio dos homens e recolhe-se na solidão de si mesmo, dizem os evangelhos, ele se recorda de Jesus e chora amargamente (Lc 22, 62). Mas por que chora Pedro? Uma inverdade, ainda que justificada, para os sensíveis, jamais deixará de ser uma traição.

 

Desde então, sabemos: Quem, em se recordando de Jesus, nunca chorou sobre si mesmo, este jamais esteve, de verdade, em sua proximidade. E quem esteve junto dele, de coração a coração, jamais o esquecerá. Seu rosto e seu dialeto revelará para sempre: aqui está um discípulo do Senhor.

 

Não. Não foi apenas Pedro que traiu Jesus. Sempre traímos a vida, quando, ainda que com argumentos plausíveis, não a defendemos.

 

Os discípulos

 

No Horto das Oliveiras, enquanto Jesus tremia em sua angústia, os discípulos dormiam. E quando acordaram, fugiram. De um, conta-nos Marcos (14, 51-52) que ele teria deixado na mão dos soldados a sua vestimenta e fugira nu, noite adentro. É claro: mais vale a própria pele do que a capa. É o cansaço vencendo a solicitude e o medo derrotando a fortaleza. Naquele tempo, como hoje, sempre: Também por medo, podemos matar a vida.

 

Caifás

 

Segundo alguns estudiosos, um homem colérico, segundo outros um brilhante estrategista, que, por quase 20 anos, conseguiu negociar, entre o trono (Roma) e o altar (Jerusalém), com sucesso e inteligente diplomacia, significativas vantagens para Israel. Representante máximo do Judaísmo oficial, José, o Caifás, o genial diplomata, sabe que aqui, entre Jesus e o Sinédrio, não há negociação possível.

 

É em vão procurarmos, entre os sacerdotes, feições sadísticas, sanguinárias, obreiros ardilosos do mal. Nada disso. Eles são, antes, homens retos, corretos, cumpridores das leis, homens de tranquila consciência, que, subjetivamente, querem ser agradáveis a Deus e isto em tal radicalidade que não titubeiam em matar, em nome da religião, aquele que ousa desarvorar a sua religião.

 

Sobre Caifás e todos os membros do Sinédrio podemos pensar e dizer o que quisermos. Mas neste ponto eles merecem a nossa admiração: Eles compreenderam Jesus perfeitamente, melhor, talvez, do que muitos dos discípulos e adeptos do Galileu, ao intuírem que a mensagem de Jesus é mortal para toda e qualquer religião que se degradou a um amontoado de normas, leis e obrigações e que tornou Deus inacessível aos homens.

 

E realmente: Jesus atacou frontalmente a sua religião. Não apenas em suas casuísticas secundárias e periféricas. Caifás sabe, por isso, que com o Profeta de Nazaré não haverá possíveis arranjos. O dissenso é abissal. Aqui não há espaços para diplomacias. Em consequência disso, seu ataque a Jesus é maciço e direto: Para que testemunhas? (Mt 26, 65)

 

Não. Não foi Caifás quem matou Jesus. Naquele tempo como hoje: Toda religião que substitui a misericórdia pelo sacrifício e que transforma Deus em categórico imperador termina por matar a vida. É diabólica, ainda que use vocábulos sagrados e pensa operar em nome de Deus.

 

Pilatos

 

Diante de Pilatos, afirma Mateus (27, 14), Jesus silencia. É como se ele nada tivesse a dizer a homens assim. Verdadeiramente. O que dizer ainda a homens – a um político, por exemplo – que, para além da equilibrística natural da política, deixa-se coagir contra as próprias convicções, para manter-se no poder? E o que dizer ainda a homens que parecem não possuir espinha dorsal, que se vergam como o capim ao vento, massas amorfas moduláveis por mãos alheias? O que ainda falar àqueles que se transformaram em joguetes do pragmatismo, das circunstâncias, das vantagens escusas, do medo diante dos circunstantes, a ponto de serem capazes de dizer: Não encontro neste réu nenhuma culpa… Tomem-no e façam dele o que quiserem (Mt 27, 24)?

 

Segundo João (18, 33-19,12), porém, Jesus teria dito a Pilatos umas poucas palavras, dentre as quais a única, possivelmente, a ser dita a homens dessa natureza: Tu, Pilatos, tu não tens poder algum… E o que tens, foi-te dado de cima (Roma)… Um súdito és também tu, subordinado como ora se vê (Jo 19, 11). Mas o que – poderia ter-lhe perguntado Jesus – o que é que se ganha, quando se perde desta maneira a própria grandeza?

 

Não. Não foi Pilatos que matou Jesus. Ele foi apenas o instrumento de uma política sem ethos e humanidade. Ontem como hoje, é o que faz a política quando ela se deteriora em fria calculação do jogo de poder: Ela mata a vida.

 

Herodes

 

Lucas (23, 8-11) é o único dos evangelistas a introduzir a figura de Herodes na trama final da morte de Jesus. Segundo fontes extra-bíblicas, um fanfarrão travestido de poder, Herodes Antipas, o Tetrarca da Galileia. O mesmo que, num arroubo de prepotência, exibicionismo e ebriedade, manda assassinar João Batista, para satisfazer os caprichos iníquos de uma dama ressentida (Mt 14, 1-12).

 

Apesar do secreto pavor de ser Jesus João Batista revivido (Mt 14, 1-2), ele se alegra ao ver o grande taumaturgo, a sensação maior de seus domínios: Finalmente a possibilidade de um espetáculo privado. A ele, Jesus não concede uma só palavra. Frustrado, ele devolve Jesus a Pilatos, sob escárnios e desprezo, embora pudesse salvá-lo sob sua guarda, por ser Jesus galileu e estar sob sua jurisdição.

 

Não. Não foi Herodes que assassinou Jesus. Mas será sempre assim: quando aqueles que deveriam proteger a vida transformam o seu poder em lúdico exibicionismo ou cínica fanfúrria, eles matam a vida. Ontem como hoje.

 

Um sepulcro

 

Retirado da cruz, o corpo de Jesus é preparado com mirra e aloés, presentes de Nicodemos (Jo 19, 39), e depositado numa tumba cavada na rocha, cedida por José de Arimatéia.

 

Segundo as Escrituras Cristãs, Nicodemos era um fariseu, dentre os principais judeus (Jo 3, 1). Um homem justo que defende um processo justo contra Jesus (Jo 7, 51). José de Arimatéia, por sua vez, homem bom que esperava pelo Reino de Deus (Mt 27, 57), possivelmente, um discípulo de Jesus às escondidas (Lc 23, 50 / Jo 19, 38). Ambos, portanto, homens de renome e influência em Jerusalém e membros do Sinédrio, o supremo tribunal religioso que condenara, por unanimidade, Jesus à morte.

 

Homens entre duas bandeiras, negociadores do impossível. Na melhor das intenções, ali ficaram, quem sabe na esperança de poderem, de dentro das entranhas do poder, salvar o que poderia ser salvo. É a tentativa do absurdo: sentar-se com os injustos para salvar a justiça. Não conseguiram. Possivelmente, assinaram também eles a sentença de morte. Talvez agora saibam que esperaram demais, foram longe demais, tergiversaram demais em sua estratégia e cautela diplomática.

 

Mantiveram, porém, ainda um resto de coragem, tardia, sim, mas verdadeira. Arimatéia pede a Pilatos o corpo de Jesus (Jo 19, 38). Ainda que tarde demais, é sua confissão pública de que Jesus não era um criminoso, que ele não poderia ser colocado, como todos os crucificados, na vala comum dos delinquentes.

 

Ambos, Arimatéia e Nicodemos, guardaram ao menos um resto de dignidade e delicadeza, no caos de impiedade daquela macabra sexta feira, recolhendo os restos daquele que eles, veladamente, admiravam. Um gesto, que, em silenciosa linguagem, afirma que também a destruição tem que ter um limite e mesmo os expulsos da comunidade humana devem ser tratados com um mínimo de humanidade.

 

Aqui termina a história de Jesus. Uma vida curta, repleta de beleza, graça, vicissitudes e tribulações: na tumba de José de Arimateia, o lugar entre a culpa e o arrependimento.

Por conclusão

 

Essa foi a rede tecida de medos, inseguranças, indecisões, fragilidades, equilibrística, cinismo e impiedade que, pesada como chumbo, caiu sobre o Profeta de Nazaré. Tinha razão Platão, ao dizer: Um homem justo e bom é insuportável para todos os que não conseguem se decidir pelo bem… e todos o odiarão mortalmente.