Pastoral | Quinta-feira santa: Há coisas que não morrem nunca, jamais…
594
page-template-default,page,page-id-594,qode-listing-1.0.1,qode-social-login-1.0,qode-news-1.0.2,qode-quick-links-1.0,qode-restaurant-1.0,ajax_fade,page_not_loaded,,qode_grid_1300,footer_responsive_adv,qode-theme-ver-13.0,qode-theme-bridge,wpb-js-composer js-comp-ver-5.4.4,vc_responsive
 

Quinta-feira santa: Há coisas que não morrem nunca, jamais…

Evangelho de João, capítulo 13, versículos 1 a 15

 

Era antes da festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. Estavam tomando a ceia. O diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus. Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido. Chegou a vez de Simão Pedro. Pedro disse: Senhor, tu me lavas os pés? Respondeu Jesus: Agora, não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás. Disse-lhe Pedro: Tu nunca me lavarás os pés! Mas Jesus respondeu: Se eu não te lavar, não terás parte comigo. Simão Pedro disse: Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça. Jesus respondeu: Quem já se banhou não precisa lavar senão os pés, porque já está todo limpo. Também vós estais limpos, mas não todos. Jesus sabia quem o ia entregar. Por isso disse: Nem todos estais limpos. Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-se de novo. E disse aos discípulos: Compreendeis o que acabo de fazer? Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, pois eu o sou. Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz.

PODCAST

FICHA TÉCNICA

Produção: Pastoral Universitária PUC Minas,

Organização: Prof. Eurides Rodrigues

Texto: Frei Prudente Nery, OFMCap.

Locução: Pe. Nereu de Castro Teixeira.

Trilha sonora: gentilmente cedida pelos Monges da Abadia da Ressurreição, Ponta Grossa, Paraná.

O episódio de hoje foi Gravado e Editado no Laboratório de Áudio da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, em fevereiro de 2018.

Há coisas que não morrem nunca, jamais…

 

Se é verdade o que dizem, a saber: que, às vezes, são mais terríveis a expectativa de uma tragédia e a angústia que a antecede do que a própria tragédia, então essas hão de ter sido as mais terríveis horas de Jesus de Nazaré. Ele tem a íntima certeza de chegava a sua hora, que o ódio de seus adversários se deitará sobre ele, mais dias menos dias, de forma fatal. Onde? Quando? Na Cidade Sagrada? Nas vésperas da Páscoa, a mais bela festa de sua religião?

 

Como um banido em sua própria terra, ele recorda, numa última ceia, a liberdade de seu povo, a saída de sua escravidão do Egito. Sem cordeiro pascal, longe de seus irmãos na fé. As sinagogas e o Templo já o declararam um apóstata, um mentor de indisciplina e inaceitáveis doutrinas, um subversor da ordem religiosa, sim, um endemoniado. Por que tamanha rejeição? Afinal, há menos de três anos, tudo começara de forma tão bem promissora… uma verdadeira primavera, que contagiava a tantos, pela sua vitalidade: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e aos pobres é anunciada uma bela mensagem (Mt 11, 2-6). E, agora, o declínio. O povo se retrai. É certo que as multidões o acolheram, com entusiasmo, às portas de Jerusalém (Mt 21, 8-9). Mas quão grande eram essas multidões e quão firmes suas convicções? Para Jesus, parece agora claro: Jerusalém está pronta, não para acolhê-lo e renovar-se em seu espírito, mas para expulsá-lo, definitivamente, de seu meio como um estorvo, um incômodo, um falso profeta.

 

O que faz um homem, quando sua vida ameaça ruir, à sua frente, em reveses e num possível fracasso? É natural que ele, revendo tudo até aqui, se pergunte: Onde errei? É o que Jesus há de ter feito, nesses dias que precederam sua morte. Como num cadinho ao fogo, ele deve ter provado a consistência de todas as suas palavras e atitudes. Não teria ele ido longe demais? Não fora melhor, ter sido mais prudente e cauteloso, mais moderado e diplomático em suas críticas à religião e em sua invectivas contra sacerdotes?

 

Acusam-no, sobretudo, de ter transgredido as leis, de não ter sido fiel às tradições religiosas e de desrespeitar as Escrituras Sagradas de seu povo. Como? Quando? Há de ter se perguntado Jesus. Onde quer que se abram os Santos Escritos, em qualquer de seus livros, em todas as suas páginas, nas linhas e entrelinhas de todas as suas letras, de uma só coisa fala o seu texto: Deus, ainda que altíssimo e inefável, está sempre junto dos homens, ouvindo seu clamor, vendo a sua dor, cuidando dos homens, como um pai de seus filhos. Isso e não outra coisa quis Jesus que fosse sua própria vida, em suas falas, em seus feitos.

 

Que todos, sem exceção, fossem reconduzidos à casa daquele que ele, com verdade e ternura, costumava chamar de abba, meu querido pai (Jo 17,1). Foi assim quando ele, atravessando as fronteiras de todos os preconceitos, se aproximou de uma mulher pagã e a fez sentir-se filha do Altíssimo (Jo 4). Assim também quando tomou sob sua proteção a vida ameaçada de uma jovem mulher, devolvendo-a ao seu caminho, perdoada (Jo 8, 1-11). Assim foi, quando ele tocou os olhos do cego, iluminando-lhe a vida (Jo 9). Foi o que ele fez, quando chamou da tumba, para fora, aquele que, precocemente, deixara de viver (Jo 1, 1- 47). O que, afinal, em tudo isso, poderia estar assim tão errado e marginal, que o fizesse, agora, um errante e um marginalizado de sua religião?

 

Só houve um problema, nada secundário, em tudo isso. Quando só Deus é o absoluto de uma vida, todo o resto se torna relativo, sim, apenas secundariamente importante. E quem, assim radicado em tal Absoluto e Sagrado, superou todos os medos e temores, este é não apenas um homem livre, mas uma ameaça a tudo aquilo que, neste mundo, se faz sagrado e ousa erguer-se ao lugar de Deus.

 

Quem se coloca junto aos homens, defendendo-lhes a dignidade, inevitavelmente, se colocará em rota de colisão com todos aqueles que se entendem e se comportam como administradores e senhores das vidas humanas: na família, na sociedade, na política, na religião… e experimentará, contra si, resistência, desprezo, rejeição e, não raro, o ódio. Pois nada é mais perigoso para este mundo e seus esquemas, para todos aqueles que fazem de homens meios e instrumentos de seus interesses do que um homem livre e, por isso mesmo, libertador.

 

Ainda uma vez: Não teria sido melhor retroceder ou, pelo menos, acautelar-se, como lhe sugerem seus discípulos, evitando ir à Judéia e a Jerusalém, onde a ira de seus adversários já se revelara como altamente aguda e violenta? (Jo 11, 8) A outros, quem sabe, isto ainda seria permitido, mas não a Jesus de Nazaré. Afinal, são suas as palavras: Não se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sobre o candeeiro, a fim de que alumie a todos os que estão em casa (Mt 5, 15). E mais. Ele, que ensinara aos homens o destemor, dizendo-lhe: Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma. Antes, temei aquele que pode fazer perecer tanto a alma quanto o corpo (Mt 10, 28), deve-se a si mesmo e a todos a verificação de suas convicções e palavras. Sem se trair, a si e à própria verdade, não é possível ensinar aos homens a fé, a coragem, a absoluta confiança em Deus e nele apenas, e, ao mesmo tempo, bater em retirada, tíbio, temeroso, pusilânime, diante dos homens e suas ameaças. Não é possível ensinar aos homens a crerem na suave força da bondade e, ao mesmo tempo, render-se e fugir diante dos artifícios da maldade.

 

Impensável. Assim não lhe resta outra coisa a não ser fazer o que faz. Ele, que acolhera a todos, se reúne agora, como um foragido dos homens e expulso de sua comunidade, com um pequeno grupo, seus amigos. Com eles, ele reza os salmos que recordavam as maravilhas que Deus fizera ao seu povo, ao retirá-lo da terra da escravidão (Egito) e conduzi-lo, entre sacrifícios e bênçãos, à pátria de sua liberdade (Terra Prometida). Entre tais salmos, as palavras impressionantes: Quando saiu Israel do Egito, o mar o viu e fugiu. O Jordão recuou. Os montes saltaram como carneiros e as colinas como cordeiros de um rebanho. Que tens, ó mar, que assim foges? E tu, Jordão, por que recuas? Estremece, sim, ó terra, pois aqui está presente o Deus de Jacó, aquele que transforma a rocha em fonte de água (Sl 114). Este é seu Deus. Enquanto essas palavras ainda lhe descem dos lábios à alma, Jesus deixa a Ceia do Adeus e vai para o Monte das Oliveiras. Uma noite sem fim. Ele, que ensinara aos homens a confiança, agora treme.

 

Por que? Ter-se-ia Deus, neste momento, aquele que Jesus, qual uma criança, costumava chamar de seu pai, recolhido nos abismos insondáveis de seu silêncio e segredo, recusando-lhe sua presença? Ou não seria, antes, o contrário? Sim. Deus e apenas ele, foi o único sustentáculo que lhe restou. Todo o resto parece-lhe, neste instante, apenas ruína. Um abismo de solidão. Não entre Deus e seu filho, mas entre Jesus e os homens. Porque isso é terrível o bastante para fazer suar sangue os sensíveis: Constatar quão frágil e impotente é a pura bondade diante dos ardis e as perpetrações da maldade. Verificar que até mesmo aqueles com os quais se esperava contar (os discípulos) não estão ao seu lado, mas dormem. E ele, que se todos se aproximou em seu sofrimento, agora está só, terrivelmente só.

 

Nessa véspera de sua paixão, contam os Evangelhos, Jesus teria rezado a Deus que, se possível, lhe permitisse um outro caminho para a sua verdade, à margem e longe da dor. Desde aquela noite, nós sabemos: Não existe um tal caminho. Enigmaticamente: As verdadeiras alegrias só nos visitam do outro lado das duras buscas, da penosa resistência e dos inevitáveis sofrimentos. É a lição da última noite de Jesus entre os homens, quando todos os seus desejos, suas preces e esperanças se fundem numa só e indestrutível confiança: Ainda que eu tenha que atravessar os vales sombrios da morte, não temerei, porque tu estás comigo (Sl 23).

 

A Jesus é claro: Não há razões para um recuo nos temores. E se não há outro caminho, que seja esse: É possível que me arranquem da vida, como fazem os ceifeiros com o trigo ou os vindimadores com a uva. É possível que me triturem sob a mó, como fazem os moedores com o grão de trigo e os vinicultores com as uvas sob seus pés. Ainda assim, não será o fim. Como o pão que alimenta e o vinho que inebria o coração, quero estar junto dos homens, para sempre, qual uma permanente memória de que há coisas, já neste mundo, que jamais morrem. Por exemplo: o amor que se dá e se recebe e a bondade que lava os homens de seus sofrimentos e os torna puros e dignos de estar à mesa da fraternidade (lava-pés).

 

Frei Prudente Nery, OFMCap.