Pastoral | Não há outro caminho…
551
page-template-default,page,page-id-551,qode-listing-1.0.1,qode-social-login-1.0,qode-news-1.0.2,qode-quick-links-1.0,qode-restaurant-1.0,ajax_fade,page_not_loaded,,qode_grid_1300,footer_responsive_adv,qode-theme-ver-13.0,qode-theme-bridge,wpb-js-composer js-comp-ver-5.4.4,vc_responsive
 

Não há outro caminho…

Evangelho de Marcos

Capítulo 9, versículos 2 a 10

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e os levou sozinhos a um lugar à parte sobre uma alta montanha. E transfigurou-se diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar. Apareceram-lhe Elias e Moisés e estavam conversando com Jesus. Então Pedro tomou a palavra e disse e Jesus: Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias. Pedro não sabia o que dizer, pois estavam todos com muito medo. Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: Este é meu filho amado. Escutai o que ele diz. E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles. Ao descerem da montanha, Jesus ordenou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem tivesse ressuscitado dos mortos. Eles observaram essa ordem, mas comentavam entre si o que queria dizer ressuscitar dos mortos.

PODCAST

FICHA TÉCNICA

Produção: Pastoral Universitária PUC Minas.

Organização: Prof. Eurides Rodrigues.

Texto: Frei Prudente Nery, OFMCap.

Locução: Pe. Nereu de Castro Teixeira.

Trilha sonora: gentilmente cedida pelos Monges da Abadia da Ressurreição, Ponta Grossa, Paraná.

O episódio de hoje foi Gravado e Editado no Laboratório de Áudio da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, em fevereiro e março de 2018.

Não há outro caminho…

 

Que os homens se afastem de nós, quando lhes somos indiferentes ou rudes ou agressivos, que eles se voltem contra nós, quando lhes somos injustos e os ferimos, que eles, mesmo aos gritos, digam a verdade de nossas mazelas e, por causa de nossas maldades, nos persigam e queiram nos eliminar, para que seu sofrimento tenha um fim, tudo isso é possível compreender.

 

Mas e quando tudo isso acontece: malícia, maldade, malquerença, maledicência, calúnia, aversão, inimizade, agressão, perseguição, sem que nada tenhamos realmente feito para merecer tais reações? Tentamos ser afáveis e somos tratados com frieza, buscamos ser delicados e somos vistos com indiferença, esforçamo-nos em ser justos e experimentamos a injustiça. E queremos ir ao encontro das pessoas, ajudando-as, mas elas se voltam contra nós, rejeitando-nos. Queremos a vida e desejam-nos a morte.

 

Em instantes assim, nos quais vemos quase baldados e em vão todos os próprios e sinceros esforços, é natural que paremos e pensemos e, revendo a própria vida, nos perguntemos a nós mesmos: O que foi que fiz para despertar contra mim tanto ódio? Onde errei? Não deveria ter deixado tudo como estava? Não fui longe demais e ingênuo ao crer nos homens e tudo apostar em sua grandeza?

 

Hão de ter sido questões dessa natureza que levaram Jesus, um dia, para a solidão do alto de uma montanha. Sua atividade pública não atingira ainda dois anos de duração e a adversidade já se tornara insuportável. De todos os lados, as ironias, as calúnias, os cinismos, as armadilhas, as ameaças de morte. Em sua lucidez, Jesus antevê o seu destino e o vaticina aos seus discípulos: Os responsáveis da religião me levarão à morte (Mc 8, 31). Envolto de tristeza e pesar, suas palavras se tornam sombrias: É melhor perder a vida e salvar-se do que salvar a vida e perder-se… (Mc 8, 36). É disso que fala todo o capítulo 8 do Evangelho de Marcos, o capítulo imediatamente anterior a esta cena da transfiguração de Jesus sobre um monte. O laço do ódio se fecha ao seu redor e ele, perplexo, se volta para si mesmo.

 

No turbilhão de tais questões, Jesus faz aquilo que todos faríamos. Recolhe-se na solidão. Sobe a uma montanha, este lugar do mundo, onde a terra está mais próxima do céu, lá, de onde é possível ver o mundo numa outra perspectiva, lá, de onde, longe deste vale de tantas baixuras e baixarias, é possível aos olhos alcançar outros horizontes, mais amplos, mais vastos, mais profundos. E ali, ele conversa com seu próprio mistério e, num diálogo de coração a coração, com aqueles que foram, desde sempre, os pilares de sua própria religião: a lei (Moisés) e os profetas (Elias).

 

Não foi isso e apenas isso que quis Moisés, esse homem dos sonhos e de Deus: retirar seus irmãos da escravidão em que se encontravam e conduzi-los, ainda que sob enormes sacrifícios, para a terra de sua liberdade? E, no entanto, adversidade, rejeição, difamação, murmuração, insídias foi, igualmente, a paga de seu empenho (Num 14, 1-4).

 

E Elias, o profeta de fogo, não foi nisso que consistiu sua vida, até à extenuação: abraçar os pobres e os últimos contra a injustiça e devolver os homens, contra Baal e seus sacerdotes, a Deus, o Misericordioso, o Altíssimo? (1Reis 19, 1-21). E não foi assim também com Elias? Sim, também este foi o destino do profeta que não conheceu a morte, quando, fugindo da fúria mortal de Jezabel (1Reis 19,2), ele se recolheu no alto de uma montanha e disse ao seu Senhor: Tenho sido muito zeloso por ti, Senhor… porque os filhos de Israel deixaram o teu pacto, derrubaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada… e eu, somente eu, fiquei, e buscam a minha vida para tirarem-na de mim. Também ele, Elias, que fechara e abrira os céus, que afrontara, sem temor, mais de 400 sacerdotes idólatras, perseguindo-os até à morte, também ele tremeu, sob as ameaças de uma rainha e, à sombra de um junípero, pediu a Deus que recolhesse, em seu cuidado, a sua alma (1Reis 19,4).

 

Como numa visão, Jesus conversa com Moisés e Elias. À sua frente, desvela-se: Assim foi e assim será a história de todos os homens de Deus. Não há outro caminho, neste mundo, senão este: Resistir, não ceder ao medo, não tergiversar diante da frieza, não bater em retirada frente às resistências do mal, não render-se ainda que titubeie a esperança, não capitular mesmo quando tudo parece ruir. Ainda que todos se voltem contra ele, agora Jesus sabe: ao seu lado está o espírito de toda a Lei e de todos os Profetas. Pois outra coisa ele não quis e não quer senão o mesmo que quiseram Elias e Moisés.

 

De repente, os céus, que sobre ele se fecharam como chumbo, se abrem outra vez. Não. Ele não foi longe demais. Ele não foi um ingênuo. Ele não foi um irresponsável. O mesmo Deus que estivera, contra todas as evidências, do lado do quase derrotado Moisés, o mesmo Senhor, que, no abandono, dera a Elias o que comer e beber (1Reis 19,6), está com ele, como um pai junto a seu filho. A tristeza se desfaz em alegria. Ele não está só. Por acaso, não é isso que significa Moisés (mosis): o filho?

 

Não há neste mundo nenhuma visão mais bela do que contemplar alguém que vive um instante de absoluta felicidade. Ornada de leveza, é como se ela pairasse por sobre o mundo. Inundada de encantamento, como num êxtase, seu olhar brilha como um sol. Suas vestes, ainda que simples, parecem nuvens que recobrem o infinito. Sobre ela, parecem descer os céus sobre a terra e a todos nos fascinassem com seus encantos. E apenas um incontido desejo: Que nunca terminasse um tal instante e que pudéssemos armar ali, no alto de tamanha felicidade, tendas, para ali ficarmos: para sempre.

 

São momentos raros estes, mas de infinita beleza e consolo. Na força de tais instantes, é possível voltar aos vales. E não foi isso que disse a Elias Deus mesmo: Vai, volta pelo teu caminho no deserto? (1Reis 19, 15). Por acaso não é isso que significa o nome Elias (Elijah): meu Deus (Jahwe) é a minha força?

 

Essa é a força que sustentou a Moisés, a Elias, a tantos outros. Nela, é possível resistir, ainda que, na terra, tudo desabe e o céu se escureça e pareça pesado como chumbo. Na sobriedade desta esperança, Jesus desce da montanha, para o vale de seus caminhos e, junto dele, os seus discípulos.

 

Frei Prudente Nery, OFMCap.