Pastoral | Ide além…
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Ide além…

Evangelho de Marcos,  capítulo 1, versículos 12 a 15

Naquele tempo, o Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias e ali foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens e os anjos o serviam. Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho.

Ide além…

 

Todos os grandes homens da história foram singularmente homens de uma densa interioridade. Não raro nós os vemos a sós, na contemplação, na oração, no silêncio. Assim também com Jesus de Nazaré: antes de ir ao encontro os outros, iluminando-lhes a vida, compreendendo-os, animando-os, dizem os Evangelhos, ele se recolheu no deserto.

 

São dele as palavras: um cego não pode guiar outro cego (Lc 6,39)… é preciso enxergar um pouco e ter compreendido melhor os caminhos para Deus, a fim de conduzir com alguma clareza aqueles que se perderam.

 

Jesus tinha razão. É uma lei do espírito: jamais se encontrará com o outro quem nunca se encontrou consigo. Nunca conhecerá o outro quem nunca se conheceu a si mesmo. Nunca compreenderá o outro quem nunca se compreendeu a si mesmo. No máximo, ele conseguirá cobrir o outro com seus preconceitos. O desfocamento de seu próprio olhar, seus desacertos interiores farão com que ele veja não tanto o outro, mas apenas as impressões de sua própria interioridade.

 

As Escrituras Cristãs afirmam que Jesus de Nazaré, antes de ir ao encontro dos homens, recolheu-se numa tal zona do silêncio e da solidão… Aí ele teria permanecido por quarenta dias, o que, mais uma vez, não é uma informação cronológica, mas relativa ao tempo do espírito (kairós): durante muito tempo, em sua vida, Jesus esteve recolhido, conhecendo os mistérios da alma humana, os labirintos da sua interioridade.

PODCAST

FICHA TÉCNICA

Produção: Pastoral Universitária PUC Minas,

Organização: Prof. Eurides Rodrigues

Texto: Frei Prudente Nery, OFMCap.

Locução: Pe. Nereu de Castro Teixeira.

Trilha sonora: gentilmente cedida pelos Monges da Abadia da Ressurreição, Ponta Grossa, Paraná.

O episódio de hoje foi Gravado e Editado no Laboratório de Áudio da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, em fevereiro e março de 2018.

Esta zona do silêncio e do recolhimento, é isto que, na linguagem religiosa, se chama de deserto. Deserto não é uma paisagem geográfica, lugar árido, seco. Na linguagem religiosa e arquetípica, deserto é o lugar da solidão consigo e com seu próprio mistério. Aí, no deserto, não há homens, não há nada que possa distrair nossa atenção. Longe de tudo e de todos que pudessem desviar nosso interesse para fora, ninguém a nos observar, a nos elogiar, a nos julgar, a nos criticar, a nos bajular, nada que impedisse a autenticidade. Apenas nós e nossa fraqueza, nós e nossa força. O Espírito o impeliu para o deserto. Espírito, aqui como em outros lugares, não aponta primariamente para aquele ser que nós denominamos como terceira pessoa da Trindade Santa. Espírito é o impulso que todo homem traz em si, quando ainda não se brutalizou e perdeu totalmente a sua sensibilidade. Espírito é transcendência: é o transpor os limites do instante atual, na direção de uma outra realidade, mais ampla, mais vasta, mais aberta, mais alta, mais profunda. Espírito é o infinito em nós, é o hálito de Deus, é o nosso ser, quando quer ir além, quer mais do que se é e do que se tem. Ele, o espírito em nós, é o responsável não apenas por nossas grandes conquistas, mas também por nossas frustrações e angústias. É por causa dele que entramos em crise, é por causa dele que nos sentimos deslocados, é por causa dele que queremos partir, sair de onde estamos, na busca de outros horizontes.

 

Se não fossemos espíritos, seríamos como os bichos, que nascem, comem, dormem, procriam-se e está tudo em ordem. É, por isso, um sinal de que estamos perdendo o espírito e a espiritualidade, quando já não sonhamos mais, quando não queremos mais nada, quando tudo que fazemos é apenas isto: o comer, beber, dormir e nada mais. Quando a criatividade se vai, quando se vão os sonhos, os desejos, o querer criar, buscar. Quando aquilo que fazemos e somos já não nos basta mais, quando inquieto fica o nosso coração, quando queremos partir na busca de outros horizontes, aí está o espírito, impelindo-nos. Em tais instantes, experimentamos uma grande solidão… um deserto.

 

Com certeza, isso ocorreu também com Jesus de Nazaré. O Evangelista Lucas (2, 52) afirma, com todas as letras, que este homem cresceu em sabedoria e graça. Ele não caiu pronto do céu. antes, percorreu a trilha do ser homem… e aqui está uma das cenas de sua vida. Causam-nos admiração e perplexidade a liberdade, a soberania, a profundidade e a beleza das palavras e atitudes de Jesus de Nazaré, a sua intimidade e proximidade com Deus e os homens, a forma como ele compreendia as pessoas, descendo fundo em sua alma, percebendo seus problemas e apontando os caminhos da redenção de cada um…

 

E imaginamos que isto é assim porque ele é Filho de Deus. Tudo já estaria pronto. Não, os evangelhos estão cheios de detalhes de como se deu este crescimento, a conquista de sua grandeza. E uma dessas passagens é esta que estamos meditando. Aí diz o texto: ele foi tentado por Satanás, convivia com animais e anjos o serviam… o que é isto? Poderíamos aqui – como fazem muitos comentários exegéticos! – dizer que se trata de um simbolismo messiânico, no sentido das antigas profecias que prometiam paz e harmonia do homem com a natureza e os animais para os tempos messiânicos (Is 11, 6-9; 65,25). Neste caso, tudo isto estaria aí narrado apenas para afirmar que Jesus era, verdadeiramente, o Messias. Entretanto, parece que esta imagem se explica mais e melhor de uma outra maneira. Não se trata aqui tanto de uma harmonia com a natureza exterior, mas teríamos aqui símbolos da luta e da conquista da harmonia interior deste homem consigo e com o mundo. Aliás, esta é uma cena bastante comum e frequente nos mitos e lendas dos povos, nos quais se falam sempre dos heróis que, antes de libertarem a amada ou os homens, travam dramáticas lutas com animais ferozes e dragões. E isto significa: todo aquele que quer salvar sua anima (nas lendas: a princesa), tem, primeiro, que domesticar a sua animalidade.

 

Simbolicamente, animais apontam sempre na direção dos instintos e impulsos e não apenas de ordem sexual. Animais simbolizam sempre aquilo que está ainda selvagem, não domesticado, não integrado. Todos temos profundas dificuldades em aceitar e integrar os instintos naturais que todos temos… por exemplo: os impulsos agressivos, a egofilia, o desejo de posse.

 

Vejamos isto, fazendo conosco um teste:

     – Nós dizemos que queremos servir, servir a Deus e aos homens, mas não há também aí uma forte dose de busca de reconhecimento e admiração?

     – Nós dizemos que queremos trazer os homens para Deus, mas não poderia haver aí igualmente o interesse de atrair as pessoas para nós mesmos?

     – Nós dizemos que queremos ajudar os pobres, mas não poderia haver aí o interesse de, em ajudando os pobres, engrandecer-nos?

 

A primeira coisa, pois, que temos que fazer é aceitar que somos assim: temos impulsos e instintos, queremos ser amados, temos nervos, temos estômago, temos necessidades instintuais, não somos anjos, temos carências, temos limites, somos também bichos e, às vezes, muito ferozes. Acolher esta nossa herança e admitir, por exemplo, que queremos ser amados, que a egofilia, o gostar de si mesmo, não é algo ruim, mas natural, isto é, pertence à nossa natureza, mas pode se tornar algo horrível e desumano, quando se desequilibra e se transforma em egolatria. Que ser firme e viril, por exemplo, não é ruim, mas que isto se torna terrível e desumano, quando a firmeza se transforma em granítica intransigência e a virilidade, em machismo. Que comer – beber é bom e natural, mas que pode se transformar em culto do estômago.

É o que significa demônio. Demônio não é o princípio do mal, como se difundiu no imaginário popular, mesmo porque, segundo a tradição cristã e a dogmática católica, não existem dois princípios, um do bem, outro do mal. Só existe um princípio de todas as coisas: Deus. Demônio não é, pois, o princípio do mal, mas a decadência ou o desequilíbrio das forças que Deus mesmo, criando-nos, em nós colocou. Aliás, segundo algumas lendas religiosas de nossa tradição, o demônio é apenas um anjo decaído, isto é: algo, em princípio, bom, mas que não manteve a sua justeza e se desequilibrou. Assim, nada que trazemos em nossa natureza é mau, absolutamente, mas pode se transformar num mal terrível, se perder o equilíbrio ou a justa medida. Assim, por exemplo: uma bondade sem limites pode se degenerar em permissividade, uma disciplina desmedida pode se transformar em tirania, um comer desmesurado por se transformar em gula, um jejum desordenado em agressividade contra a vida e assim: a ternura pode virar frescura, a seriedade em carranca, o trabalho em escravidão, o lazer em ócio…

 

Estar com demônios e animais é, pois, aceitar nossa herança instintual, nossos impulsos e instintos, conservá-los em nossa casa (domesticação), é fazer, por exemplo, do leão que somos um leão, sim, mas domesticado, na confiança de que tudo que Deus quis e fez é bom. É abrir mão de querer ser um super-homem ou um anjo, porque sempre que queremos ser super-homens ou semideuses nós nos transformamos em seres diabólicos. Tudo que, por medo ou arrogância, nós reprimimos em nós mesmos, negando-o ou expulsando de nós, acaba inevitavelmente tomando formas de incontrolável selvageria. São exatamente tais impulsos represados que, não raro, arrebentam as barreiras, inundando desastrosamente as paisagens ao redor. Ao contrário: se tratados com normalidade e sem medo, os animais selvagens se transformam em animais domésticos, com os quais podemos conviver em harmonia, até que eles, ao final, se transformam em seres celestiais.

 

Esta unidade de contrários: espírito e instinto, alma e corpo, imanente e transcendente, finitude e infinitude, só se consegue com muito sacrifício… E é disso que falam os textos das tentações. Quando ousamos descer às profundezas de nós mesmos, sempre trombaremos com forças descomunais que habitam em nós mesmos, forças que podem nos levar nessa ou naquela direção, forças que nos desagregam ou congregam, que nos tornam arrogantes ou bons. Essas forças são o que significa a palavra daimon. Equilibradas, estas forças são as virtudes. Desequilibradas, essas forças são os vícios. Assim foi Jesus de Nazaré: um homem do justo equilíbrio, delicado e vigoroso, disciplinado e livre, compreensivo e exigente. Resumindo: a experiência desértica de Jesus não significa outra coisa senão a experiência arduamente conflitual, instantes nos quais se decide se o homem se torna homem ou se ele permanece apenas um animal.

 

O Redentor tinha que superar primeiro em si mesmo os perigos e vícios dos quais Ele queria libertar os homens e o mundo. Pois esta é mais uma lei do espírito: acompanhar os homens só podemos até lá onde nós mesmos chegamos, nenhum passo a mais. Ou como dizia o próprio Jesus: Um cego não pode guiar outro cego… ambos caem no buraco. Não somos bichos. Mais além (metanóia) é o nosso lugar.

 

Frei Prudente Nery, OFMCap.